Tiago Barata – Blog de Fotografia e Viagens

Este blog é dedicado a quem gosta de fotografia e viagense para todos aqueles que têm curiosidade de saber a minha visão do Mundo.


Deixe um comentário

Caretos de Podence, Património da Humanidade

Os Caretos de Podence foram hoje, 12 de Dezembro de 2019, oficialmente reconhecidos pela Unesco como Património Imaterial da Humanidade. A candidatura das “Festas de Inverno Carnaval de Podence” foi considerada pela Unesco como exemplar na Assembleia Geral em Bogotá, na Colômbia.

02_IMG_9463_500

Os Caretos de Podence marcam a folia das Festas de Inverno, que decorrem entre o Natal e o Carnaval na região de Trás-os-Montes, perto de Macedo de Cavaleiros, uma tradição que se acredita remontar à época dos romanos.

Os Caretos de Podence distinguem-se dos demais caretos em Portugal pelas cores exuberantes dos seus fatos franjados de lã vermelha, verde e amarela, que conferem um colorido especial ao “Entrudo Chocalheiro”, na semana de Carnaval. Para se manterem no anonimato, os Caretos de Podence tapam a cara com máscaras rudimentares tipicamente feitas de latão pintado de vermelho, algumas feitas de couro, todas elas de nariz pontiagudo.

01_IMG_8584_500

Nesta semana do ano, os caretos não param: rua acima, rua abaixo, a correr, a saltar, a brincar, a dançar mas, acima de tudo, a perseguir, “aterrorizar” e, claro está, a “chocalhar” as raparigas solteiras. Para tal, além do colorido traje, fazem uso dos chocalhos à cintura e de uma vara de madeira na mão, encarnando a pele do diabo.

06_IMG_9428_500

_MG2E_6261_500

Todos os anos, as festividades terminam com a Queima do Diabo, durante a qual os Caretos de Podence correm em círculos à volta de um enorme diabo a ser devorado pelas chamas sob o olhar atento de uma pequena multidão.

Parabéns aos Caretos de Podence e às gentes transmontanas que muito têm feito por manter viva esta tradição, e que tão calorosamente sabem receber quem vem de fora!

05_IMG_9392_500

Documentário A Pele do Diabo:

Recomendo o minidocumentário A Pele do Diabo, de Zé Maria Mendonça e Moura, acerca dos Caretos de Podence:

https://vimeo.com/378265517

Com este documentário, o realizador quis retratar o contra-senso da realidade dos caretos: durante o ano procuram fazer o bem, viver em comunidade, mas “naquele dia [terça-feira de Carnaval] é-lhes permitido vestir a pele do diabo”. Era, historicamente, como conta o narrador ao longo do filme, “um dia em que se permitia tudo aquilo que ia ser proibido a seguir, os excessos, a alegria, a euforia, numa época crítica em que já passaram três meses de frio, em que a terra está morta, em que nada cresce, em que os frutos não germinam”. O homem sentia, depois, a “necessidade de provocar essa fertilidade”, a da terra e a da mulher. In Publico


Deixe um comentário

Despertar Consciências

_MG2F_0680_500

À data que escrevo este post, Portugal atravessa uma das piores seca de que há memória! Segundo o IPMA, a 15 de Novembro cerca de 6% do território estava em seca severa e 94% em seca extrema. Outubro de 2017 foi o mês de Outubro mais quente dos últimos 87 anos, ou seja, desde que há registos (1931), com a temperatura média do ar 3°C acima do valor normal para a época.

_MG2F_0668_500

No fim-de-semana decidi rumar a Sul para presenciar in loco os efeitos da seca na barragem do Pego do Altar, Alcácer do Sal. Em virtude da actual cota da barragem, cerca de 8% da sua capacidade, a ponte de Rio Mourinho construída há 200 anos, que nas últimas duas décadas esteve submersa, passou a ver a luz do dia…

_MG2F_0659_500

No local a presença de água é meramente residual, com os inerentes efeitos em toda a fauna e flora.

_MG2F_0721_500

Já noite dentro e de regresso ao carro, o GPS alertava-me de que estava (ou deveria estar!) em plena albufeira da barragem…

IPHONE2017_1235_500

Termino relembrando a campanha para o uso responsável da água: “Fechando a torneira 1 minuto poupamos 12 litros de água. Se todos o fizermos, poupamos 120 milhões de litros por minuto” – um valor “suficiente para garantir as necessidades básicas de um milhão de portugueses”

“Não controlamos o tempo que faz, mas podemos controlar o que fazemos com o tempo”.

_MG2F_0837_500

 


Deixe um comentário

Caretos de Lazarim

_MG2E_0699_500

Quando em 2012 preparava a viagem fotográfica ao Entrudo de Podence (fotos aqui), deparei-me com outro dos carnavais mais tradicionais do nosso país: o Entrudo de Lazarim. Este ano, ainda na madrugada da terça-feira Gorda, arranquei em direcção à pequena vila do concelho de Lamego com a chuva a não dar tréguas durante todo o caminho._MG2E_0679_500

Lazarim celebra uma tradição ancestral e pagã, que se crê de origem Celta. Do imaginário dos artesãos locais são esculpidas máscaras diabólicas, animalescas, sisudas ou figuras grotescas em pedaços de troncos de madeira de amieiro verde – os Caretos.IMG4A_0665_500

IMG4A_0712_500

Os Caretos não saem à rua sem antes se vestirem com trajes velhos elaborados, na maioria das vezes, com produtos reaproveitados da natureza, como restos das colheitas._MG2E_0673_500

Durante toda a tarde os Caretos correm, saltam, assustam crianças, chocalham senhoras, sempre com muito boa disposição à mistura.IMG4A_0721_500

Ao fim da tarde, a festa continua com a leitura pública dos testamentos, numa luta aberta entre rapazes e raparigas solteiras. Manda a tradição que os rapazes se reúnam semanas antes em segredo para comporem o testamento das raparigas e elas façam o mesmo. Na terça-feira Gorda, no decorrer da cerimónia, a vida dos visados maiores de 12 anos e não casados é totalmente exposta em praça pública, sem clemência e usando de linguagem quase sempre brejeira.IMG4A_0820_500

Já ao crepúsculo, dá-se a queima da comadre e do compadre, qual mini-espectáculo pirotécnico. O dia termina com uma feijoada, caldo de farinha e petiscos tradicionais._MG2E_0655_500

_MG2E_0792_500

Foi sem dúvida um dia duro, com centenas de quilómetros percorridos, sempre com a chuva e vento a não dar tréguas! O material fotográfico foi posto à prova como nunca me lembro, muito para lá do razoável! Mas acima de tudo cheguei a Lisboa feliz e com mais um projecto cumprido.

Quem corre por gosto não cansa…mais ou menos!IMG4A_0864_500


Deixe um comentário

Outono no Gerês

_MG2D_3095_500

Assinala-se hoje, 23 de Setembro de 2015, o equinócio do Outono,  nome que se utiliza na astronomia para o fenómeno que marca o final do Verão e a chegada da nova estação.

_MG2D_3163_500

De modo a marcar esta data, decidi publicar hoje o resultado fotográfico de uma viagem que fiz o ano passado às Serras da Peneda/Gerês. Considero que, a par do Parque Natural da Serra de Montesinho, são os dois locais de eleição em Portugal para contemplar (e fotografar claro está!) as cores quentes do Outono.

_MG2D_3158_500

_MG2D_3228_500

Some-se a enorme simpatia e generosidade da população e a sua excelente gastronomia, e fica um pretexto para guardar todos os anos alguns dias de férias para rumar a Norte.

_MG2D_3350_500

_MG2D_3197_500

Além das paisagens da Serra da Peneda e Serra do Gerês, tão próximas e curiosamente tão ricas na sua diversidade, a viagem não pode terminar sem a visita aos espigueiros do Soajo e, em particular, aos espigueiros do Lindoso, estruturas em pedra que têm como função secar o milho e, ao mesmo tempo, impedir a sua destruição por roedores.

_MG2D_3444_500

_MG2D_3449_500             _MG2D_3407_500

Ao escrever este texto reparei na curiosidade de neste post (Outono em Boston), publicado em Dezembro de 2014, ter assinalado não o início mas sim o fim do Outono. Se a isso juntarmos o post (Outono em Nova Iorque) restam poucas dúvidas da atracção que tenho por esta estação do ano…

_MG2D_3463_500

Um muito obrigado à Ana e Aníbal Marques pela companhia e preciosas dicas no local e ao António Sá que nos preparou um verdadeiro roteiro por terras do Minho.


2 comentários

Ibéria Agreste

IMG2C_6161_500

O êxodo forçado de milhares de pessoas de uma vida dura nos campos para a esperança de uma vida digna nas grandes cidades, levou ao abandono e muitas vezes ao esquecimento de vastas regiões do interior de Portugal. Este fenómeno foi muito característico no Norte e Centro de Portugal, ainda nos tempos da ditadura do Estado Novo, muitas vezes com a fuga “a salto” e longas caminhadas durante a noite para atravessar a fronteira. Quase sempre como destino final: França.

IMG2C_5972_500

Este fenómeno migratório não foi exclusivo de Portugal e verificou-se igualmente na vizinha Espanha, esvaziando muitas aldeias, por exemplo, de Castela-Leão. Nestas zonas, as migrações massivas de pessoas conduziu a um interessante paradoxo: enquanto as grandes cidades se debatiam (e debatem!) com problemas de sobrepopulação e excesso de poluição, no Interior assiste-se ao recuperar da natureza dos locais outrora ocupados pelo Homem. Uma excelente notícia para a conservação da natureza!

IMG2C_6032_500

Faz hoje um ano que terminava um workshop avançado do fotógrafo António Sá, no qual tive a oportunidade de explorar a zona da Sierra de la Cabrera. As condições agrestes desta serra, com muitos picos acima dos 2000 metros, levaram ao êxodo de grande parte da população, permitindo por exemplo um aumento da população de corços e lobos, que agora até já têm de novo a companhia do urso-pardo ao fim de muitos e muitos anos.

IMG2C_5995_500

IMG2C_5992_500

Esta viagem foi curta, mas memorável! Pela fotografia, pela gastronomia (em particular a carne e cogumelos…afinal também se come muito bem em Espanha!), pelos parques infantis em todas as aldeias (sim, mesmo em todas as aldeias, independentemente da sua dimensão!), mas acima de tudo pelas vivências, pela população que estoicamente luta contra a desertificação, contra o desaparecimento das aldeias do mapa. Na aldeia de Quintanilla aprendemos e muito sobre a história desta região de Espanha com o pastor Paco.

IMG2C_6076_5002

IMG2C_6055_500

IMG2C_6051_500

Na aldeia de Santa Cruz, onde conhecemos os únicos dois habitantes, um deles um acérrimo defensor do lobo ibérico e um genuíno contador de histórias, de “sangue anarquista e republicano de nascença” (como se define).

IMG2C_6582_500    IMG2C_6591_500

Chega a ser inacreditável que ainda não tivesse conhecido esta região! Quem preferir divertir-se na neve aqui fica uma alternativa, com uma procura ínfima comparada com a Serra da Estrela!  IMG2C_6221_500


1 Comentário

Outono em Boston

Assinala-se hoje o solstício de Inverno do ano de 2014, sendo a duração da noite a mais longa do ano. No que às estações do ano diz respeito, o Outono despede-se dando lugar a um (muito frio) Inverno.

A viagem que fiz a Nova Iorque no Outono de 2008 não estaria terminada sem uma visita a um grande amigo que frequentava um MBA em Boston. Afinal de contas, e para o referencial americano, era ali tão perto, à distância de uma “curta” viagem de autocarro.

A cidade mais populosa do estado norte-americano de Massachusetts, com 5,8 milhões de habitantes, é conhecida, não só por ser um centro financeiro e industrial, mas essencialmente pelas reputadas universidades de top mundial, como sejam a Universidade de Harvard ou o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Como qualquer Universidade nos EUA, a ligação ao desporto é umbilical. Pela proximidade ao Oceano Atlântico, o remo e a vela são os desportos de eleição para os estudantes, e a competição entre Universidades uma realidade.

À semelhança de Nova Iorque tive a felicidade de contemplar a cidade em pleno Outono, “pintada” com uma palete de cores vivas difíceis de encontrar em Portugal.

Mas diria que a grande conclusão desta curta passagem por Boston é que a cidade é sem dúvida a mais europeia que conheci até hoje nos EUA. No entanto, as celebrações e o furor dos americanos pelo Halloween não poderiam faltar!


Deixe um comentário

Cante Alentejano, Património da Humanidade

IMG2D_1882_500

A confiança estava em alta, era apenas uma questão de tempo! O reconhecimento da UNESCO e a decisão de integrar o Cante Alentejano na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade.

IMG2D_2134_500

Por isso mesmo, a decisão de escrever este post estava tomada desde que o processo de candidatura foi entregue na UNESCO para apreciação. Quem já teve oportunidade de presenciar e sentir a força do Cante Alentejano percebe do que estou a falar, da inevitabilidade do seu reconhecimento. Tenhamos orgulho do Alentejo e desta tradição de um Povo e do nosso País!

IMG2D_2146_500

As fotos que retratam este post são uma pequena amostra das muitas oportunidades que tive para ouvir, conviver e fotografar grupos de Cante Alentejano, no Alentejo e na recente iniciativa Rota do Cante, em Lisboa.

IMG2D_2005_500

O Cante Alentejano

O Cante Alentejano pertence não só ao património colectivo do Alentejo, como é uma das tradições musicais mais marcantes de Portugal.

As origens do Cante não são fáceis de determinar mas são identificáveis influências dos árabes que permaneceram no Alentejo por mais de 500 anos. Durante décadas esta “voz colectiva do Alentejo” foi transmitida de geração em geração. Hoje em dia, à tradição familiar, junta-se a aprendizagem em algumas escolas.

IMG2D_1912_500

 

IMG_3007-Edit_500

IMG_2965-Edit_500

Nascidas nos campos e nas tabernas, as letras do Cante Alentejano falam da planície seca e quente do Alentejo, do trabalho árduo da agricultura, da miséria, da fome, da repressão fascista, dos santos padroeiros e do amor. A este propósito recomendo a ouvir a arrepiante moda alentejana “Hino dos Mineiros de Aljustrel”, uma simbiose perfeita entre a força e o silêncio, o sentimento expresso em palavras.

IMG2D_2048_500

IMG2D_2123_500

Vive-se actualmente um momento de optimismo, agora reforçado por esta decisão da UNESCO, uma vez que dezenas de grupos amadores, muitos deles formados por jovens, se reúnem regularmente não só no Alentejo, como nos arredores de Lisboa e em diversos países da diáspora para dar corpo e voz ao Cante Alentejano.

IMG2D_2011_500